Revista Di@logus - Completa

RAÍZES DA SUBORDINAÇÃO FEMININA EM UMA SOCIEDADE HISTORICAMENTE PATRIARCAL

ROOTS OF FEMALE SUBORDINATION IN A HISTORICALLY PATRIARCHAL SOCIETY

Bruna SinigagliaI

Carla Rosane da Silva Tavares AlvesII

 

I Faculdade Três de Maio (Setrem), Três de Maio, RS, Brasil. Mestre em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social. E-mail: sinigaglia@hotmail.com

II Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ), Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social da UNICRUZ, Cruz Alta, RS, Brasil. Doutora em Estudos Literários. E-mail: ctavares@unicruz.edu.br

 

Processo de avaliação: Double Blind Review

Submetido em: 29.01.2019

Aceito em: 08.04.2019

 

Sumário:1 Introdução. 2 Metodologia. 3 Desigualdades de gêneros e patriarcado. 4 Condição feminina na história: a ocultação do trabalho da mulher. 5 Análise e discussão de dados coletados: trajetória laboral e aspectos socioeconômicos das integrantes do corpus da pesquisa. 6 Conclusão. Referências.

Resumo: A presente investigação apresenta alguns dos resultados da pesquisa realizada na Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social da Universidade de Cruz Alta, com o objetivo de levantar reflexões acerca da condição feminina em uma sociedade historicamente patriarcal, assim como a possível evolução laboral da mulher, partindo de um estudo de caso realizado em uma empresa do município de Santa Rosa - RS. O problema de pesquisa centra-se em verificar em que medida o patriarcado e as desigualdades de gênero interferem no processo de emancipação feminina. O aporte teórico fundamenta-se em autores como, Castells (2000, 2005), Perrot (1995, 2007), Saffiotti (1981,1987, 2004, 2005), Santos (2008, 2010), Soibet (2016), dentre outros. O estudo caracteriza-se como uma pesquisa social, descritiva do tipo qualitativa, com análise documental e bibliográfica e método do estudo de caso. Os dados foram coletados por meio da aplicação de dez questionários semiestruturados e três entrevistas, cuja interpretação e categorização se fundamentaram na análise de conteúdo (Barbin, 2009). Foi possível apurar que as raízes das desigualdades de gênero são profundas e ainda alimentam práticas de discriminação e inferiorização da mulher, entretanto a educação formal e o trabalho assalariado interferiram diretamente no processo de evolução e superação do contexto de subordinação vivenciado pela mulher.

Palavras-chave: Patriarcado. Subordinação. Evolução.

Abstract: The present research presents some of the results of the research carried out in the Master’s Dissertation of the Postgraduate Program in Sociocultural Practices and Social Development of the University of Cruz Alta, with the objective of raising reflections about the feminine condition in a historically patriarchal society, as well as the possible labor evolution of women, starting from a case study carried out at a company in the municipality of Santa Rosa - RS. The research problem focuses on verifying the extent to which patriarchy and gender inequalities interfere with the process of female emancipation. The theoretical contribution is based on authors such as Castells (2000, 2005), Perrot (1995, 2007), Saffiotti (1981,1987, 2004, 2005), Santos (2008, 2010), Soibet (2016), among others. The study is characterized as a social research, descriptive of the type of case study, with qualitative approach and documental and bibliographic analysis. Data were collected through the application of ten semi-structured questionnaires and three interviews, whose interpretation and categorization were based on content analysis (Barbin, 2009). It was possible to verify that the roots of the gender inequalities are deep and still feed practices of discrimination and inferiorization of women, however, formal education and paid work interfered directly in the process of evolution and overcoming the context of subordination experienced by women.

Keywords: Patriarchate. Subordination. Evolution.

1 INTRODUÇÃO

Tratar de questões relacionadas a gênero, em uma sociedade que traz em suas raízes a desigualdade entre homens e mulheres, é sempre uma tarefa necessária e também muito complexa. As mulheres carregam uma história de subordinação e inferioridade, sendo, hierarquicamente, menos valorizadas que os homens.

A visão machista da sociedade excluía a mulher da vida social, seu papel consistia apenas na procriação, organização do lar, educação dos filhos e submissão ao marido, imaginário que persiste até os dias de hoje, embora em menor escala. Entretanto, homens e mulheres nasceram em plena condição de igualdade, mas a sociedade, por meio de sua cultura, tramou a discriminação entre os sexos, não por questões biológicas, mas por ideologias que pregavam a inferiorização da mulher e lhe atribuíam apenas papéis domésticos.

A valorização da mulher e a constante luta pela superação dos efeitos do patriarcalismo são alguns dos aspectos que justificam a investigação. Além disso, busca-se, por meio do presente estudo, construir um conhecimento capaz de contribuir cientificamente com a comunidade acadêmica, servindo como base teórica de práticas sociais transformadoras e emancipatórias da mulher no mercado de trabalho e na sociedade como um todo.

Apesar de ser uma temática que já vem sendo discutida há tempos, sente-se a necessidade de explorá-la ainda mais, diante da relevância de conhecer os avanços e as barreiras que a mulher ainda enfrenta para construir a sua identidade social e profissional, bem como para promover a construção de um conhecimento capaz de contribuir cientificamente com práticas sociais transformadoras. Em meio a tantas mudanças culturais e jurídicas, ainda é preciso novas transformações, sensibilizando todos os setores da sociedade de que a cultura do machismo e da discriminação não devem mais vingar, apesar de ainda persistirem.

Dessa forma, este estudo se propõe a verificar em que medida o patriarcado e as desigualdades instauradas por ele, entre homens e mulheres, influenciaram a condição feminina nos diversos setores sociais. Como objetivo geral, a pesquisa busca proporcionar uma reflexão acerca da trajetória da mulher no mundo do trabalho e sua condição de inferioridade e subordinação, em uma sociedade historicamente patriarcal, assim como a possível evolução de seu papel laboral na sociedade brasileira atual, partindo da interpretação dos dados coletados por meio do estudo de caso aplicado em uma empresa do município de Santa Rosa – RS.

Com o intuito de identificar as variações de gênero ao longo dos tempos, inicialmente, retratamos as primícias da desigualdade de gênero ocasionada pela divisão sexual do trabalho e pelo surgimento da propriedade privada. Em seguida, discorremos sobre o patriarcado e sua relação com a dominação e, consequente, subordinação feminina. Após breves ponderações, passamos a contextualizar a representação da mulher na história, sua condição de subordinação e silenciamento frente à família e a sociedade.

Na sequência, trabalhamos a ocultação e desprestígio do trabalho feminino, salientando que, apesar de não ser socialmente aceito, o trabalho sempre esteve presente no cotidiano feminino, seja no espaço doméstico, seja no espaço público. Na continuidade, apresentamos as análises da categoria contexto de subordinação, trazendo as reais dimensões dessas questões na sociedade atual, visando a uma intervenção social por meio de uma abordagem ética e cidadã capaz de oportunizar transformações dessas práticas historicamente alicerçadas em nosso meio.

2 METODOLOGIA

Quando nos propomos a adentrar no universo da pesquisa, somos movidos pela curiosidade, por objetivos, inquietações, e assim, como toda ação humana, temos um propósito em sua execução, seja de compreender, transformar ou construir o conhecimento. Em termos epistemológicos, a pesquisa fundamentou-se na imprescindibilidade de reconhecermos a diversidade das relações sociais, incorporando os saberes variados dos sujeitos que fazem parte, direta ou indiretamente, dos contextos investigados.

Nessa conjuntura, a pesquisa qualitativa apresenta-se como um mecanismo capaz de interpretar as relações humanas e sociais, sem desprezar as percepções de cada um, permitindo que o resultado da investigação seja flexível e mutável, já que, assim como a sociedade muda, as respostas também são passíveis de alteração. Minayo (2012, p. 15) ressalta a importância da pesquisa qualitativa na análise dos fatos sociais, afirmando que “[...] o objetivo das Ciências Sociais é essencialmente qualitativo. A realidade social é o próprio dinamismo da vida individual e coletiva com toda riqueza de significados dela transbordantes”.

Para Santos (2010), é preciso rompermos com o modelo de racionalidade, no qual a ciência sustenta as explicações da vida em sociedade, passando a valorizar os diversos saberes do mundo da vida por meio de uma Ecologia de Saberes que intensifique a luta contra a opressão e reconhecimento das minorias sociais.

O presente estudo faz parte da Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Práticas Socioculturais e Desenvolvimento Social, da Universidade de Cruz Alta - Unicruz, cuja pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Unicruz em 09 de maio de 2018, sob o Parecer nº 2.643.875. Metodologicamente, o estudo caracterizou-se como uma pesquisa social, descritiva do tipo qualitativa, com análise documental e bibliográfica e com a utilização do método do estudo de caso.

A pesquisa foi realizada junto a uma empresa1 do município de Santa Rosa - RS e envolveu as etapas de análise documental, aplicação de questionário semiestruturado e entrevistas. A seleção do corpus da pesquisa foi definida, após observarmos o contexto geral do locus investigado, que foi formado por 13 colaboradoras que aceitaram participar da investigação, após conhecerem os objetivos, os riscos e benefícios por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), mantendo em sigilo a identidade das participantes que foram identificadas apenas por meio de numeração aleatória, atribuída previamente a cada um dos instrumentos de coleta.

A partir da aplicação dos instrumentos e coleta de dados, as informações foram analisadas qualitativamente, sob a perspectiva metodológica da análise de conteúdo de Bardin (2009), método de investigação no qual se faz a descrição e categorização das informações coletadas, permitindo, além de uma interpretação objetiva do conteúdo das mensagens, a intervenção subjetiva do pesquisador.

3 DESIGUALDADES DE GÊNEROS E PATRIARCADO

A história da humanidade e as questões de gênero caminham juntas, em alguns tempos com mais intensidade, em outros com menos, contudo sempre pautaram uma série de discussões acerca de quais papéis homem e mulher como seres distintos, porém semelhantes quanto à natureza humana, são incumbidos de exercer dentro da sociedade. Durante muito tempo, a tarefa da mulher era apenas dedicar-se ao lar, enquanto os homens deveriam trabalhar para prover o sustento de sua família.

Com o intuito de compreendermos a complexidade da desigualdade construída entre gêneros, no decorrer da evolução humana, precisamos explorar aspectos históricos das antigas civilizações, de forma a verificar o grau de igualdade em que os primórdios viviam. Em meio a uma cultura de inferiorização da mulher em relação ao homem, estudos arqueológicos referenciados por Eisler (2001), nos surpreendem ao revelar que, nas sociedades pré-históricas do período paleolítico e também na era neolítica, o regime de organização social não estabelecia desigualdades entre sexos.

Inicialmente, as comunidades e as famílias organizavam-se segundo um sistema chamado por Eisler (2001, p. 25) de “matrilinear”, que seria a parceria entre homens e mulheres em suas relações sociais. Segundo essa concepção, as mulheres recebiam uma valorização diferenciada em razão do papel social da maternidade, o poder de procriar, pois a espécie estava em seu domínio, o que lhes dava até mesmo o título de deusas, contudo não se percebe indícios de que elas tenham oprimido os homens em razão de seu papel de prestígio.

A necessidade de auxílio impedia a manifestação de relações desiguais entre homens e mulheres. Entretanto, à medida que a sociedade vai se tornando mais complexa, a convivência entre os membros do grupo também sofrem modificações, originando os primeiros sinais de desigualdade que surgiam desde que ocorreu a divisão do trabalho entre sexos.

A respeito da origem das desigualdades, Hahn (2016, p. 58) considera que “[...] a divisão de trabalho por gênero, desde as sociedades mais remotas, torna-se, [...] a principal causa da separação dos espaços femininos e masculinos, [...] condicionando as desigualdades futuras em sociedades mais complexas”. A nova organização social, fundada no trabalho com finalidade patrimonial, imputava tarefas que exigiam maior dispêndio de tempo e menor prestígio à mulher, colocando-a em situação de subordinação ao homem, que já era visto com superioridade.

A divisão do trabalho por gênero e a privação da mulher das inovações foram precondições para a formação de uma nova ordem social que deixava de se guiar pela igualdade e cooperação, propagando a desigualdade como algo natural entre gêneros. O novo sistema social, conhecido como patriarcalismo, foi responsável por impulsionar e expandir a dominação do homem sobre a mulher e os filhos, justificando a inferioridade e subordinação decorrente de construções culturais que orientaram a sociedade durante muitos séculos e, ainda na atualidade, deixa vestígios em nosso meio.

Quando a desigualdade de gêneros se consolida, as relações entre indivíduos passam a se constituir, a partir da hierarquiação do homem sobre a mulher, tornando-a socialmente inferior. A sociedade patriarcal acentuou ainda mais a distinções entre gêneros. O padrão criado pelo patriarcado permitia ao homem uma vida livre, na qual desfrutava do convívio social e do poder de mando sobre a esposa e os filhos, portanto as mulheres eram vistas apenas como “[...] objetos da satisfação sexual dos homens, reprodutoras de herdeiros, de força de trabalho e de novas reprodutoras [...]”, limitavam-se a cuidar da casa, do marido, dos filhos e dar ordem às escravas (SAFFIOTI, 2005, p. 42).

O patriarcado foi muito mais que uma ideologia, foi uma estrutura que se introduziu na sociedade como um todo, atingindo desde a cultura, a religião, a política, o social e até a economia. Castells (2000) refere que a atual sociedade carrega os elementos históricos do patriarcado, sendo a análise desse sistema, fundamental para a compreensão das relações de dominação social.

A força do patriarcado decorre de sua repercussão, enquanto instituição social que se reproduz de forma involuntária e se naturaliza nas práticas de opressão contra a mulher, que segundo Saffioti (2005, p. 38):

“[...] exprime, de uma só vez, o que é expresso nos outros termos, além de trazer estampada, de forma muito clara, a força da instituição, ou seja, de uma máquina bem azeitada que opera sem cessar e, abrindo mão de muito rigor, quase automaticamente”.

A mulher não é reconhecida como uma categoria social, segundo a visão patriarcal. É como se ela fosse um desmembramento do homem, todavia sem autonomia, restrita à vida privada, ao casamento, à maternidade e às tarefas do lar. Pateman (1993), no livro O contrato sexual explica que o patriarcado perpassa as relações familiares, incorporando-se à sociedade civil e às demais instituições, como Igreja, Escola e o próprio Estado. Todos os espaços estruturam-se de acordo com os ideais desse sistema, no qual é preciso incorporar a mulher à sociedade civil, não como forma de lhe conferir liberdade, mas para que ela aceite e ratifique a dominação do homem.

No Brasil, a trajetória da mulher, como em tantas outras partes do mundo, é marcada pela dominação masculina. O patriarcado assume a frente da organização da sociedade brasileira, já no início da colonização, sendo a família a instituição responsável por acolher e fomentar a hierarquia da categoria masculina. Na obra Casa-grande & Aenzala, publicada em 1933, Gilberto Freyre apresenta a formação inicial das famílias brasileiras, evidenciando que o regime patriarcalista, mais do que em outros países, está enraizado em nossa cultura, há muito tempo.

Segundo Freyre (2003, p. 33), a formação da sociedade brasileira firmou-se na mão de obra escrava, no cruzamento de raças do branco, índio e negro e no patriarcado rural. No Brasil Colônia, o poder econômico e ideológico concentrava-se na figura masculina de uma “[...] minoria de brancos e brancarões”, conhecidos como senhores que dominavam os filhos, esposa, escravos e todos aqueles que estivessem ao redor da casa-grande.

O sistema patriarcal de colonização, trazido pelos portugueses, foi responsável por construir as relações de opressão da mulher, do negro e dos que se encontrassem em situação de inferioridade aos senhores. É nele que também se assenta a promiscuidade sexual, pois os senhores se envolviam com as escravas negras, com as quais procriavam, mostrando que a vida do patriarca ia além dos limites da casa-grande.

Freyre (2003, p. 162) valoriza a atuação feminina por ser “[...] a base física da família brasileira, aquela em que se apoiou, robustecendo-se e multiplicando-se a energia de reduzido número de povoadores europeus”. Entretanto, o pensamento machista da época resume-se muito bem no que Freyre (2003, p. 48) aponta como ditado do Brasil patriarcal, “[...] “Brancas para casar, mulatas para f..., negra para trabalhar” [...]”, mostrando que a mulher é um objeto de utilidade para o homem, as brancas assumem o papel social de esposas e mães, e as mulatas e negras, a satisfação sexual e o trabalho.

O patriarcado promoveu a implantação de uma cultura de inferiorização feminina que sustenta, ainda na contemporaneidade, práticas discriminatórias nas relações familiares, na sociedade, na educação e no mercado de trabalho, marginalizando a mulher em diferentes profissões. A dificuldade da mulher em ser reconhecida enquanto sujeito de direitos, na atualidade, decorre do fato de que, lamentavelmente, conforme refere Catells (2000, p. 278), ainda há evidências de que em alguns espaços o patriarcado “[...] está vivo e passa bem”.

4 CONDIÇÃO FEMININA NA HISTÓRIA: A OCULTAÇÃO DO TRABALHO DA MULHER

Ao longo da humanidade, a mulher foi relegada dos espaços públicos, era como se não existisse para a sociedade, nem ao menos dentro do espaço doméstico possuía grande prestígio, pois o homem, enquanto chefe, não entregava o domínio do lar à mulher. Até meados do século XIX, a mulher foi silenciada, sem voz, sem atuação, sem cor, nada se tem a dizer sobre elas, tão insignificante era sua representação para a sociedade.

As mulheres formavam um grupo invisível, e a desculpa era sempre a mesma, como menciona Perrot (1995, p. 9), não há o que escrever sobre elas, “Não se sabe nada das mulheres”. Difícil realmente seria saber muito, já que o público do qual nos referimos, não tinha qualquer atuação na vida em sociedade, com tantas cenas masculinas para retratar, a pacata vida feminina permanecia sem representação.

A fim de reconstruir e conferir visibilidade às memórias femininas, autores recorrem às mais variadas áreas do conhecimento, como: História, Sociologia, Psicologia, Antropologia, Política, dentre outras, para trazer ao conhecimento, inclusive da própria mulher, a condição de opressão e discriminação que sofrera durante séculos, e que ainda não está completamente eliminada. No rol de estudiosos acerca desse tema, encontra-se Michelle Perrot, historiadora francesa, que dedicou parte de seus trabalhos para abordar a imagem e o percurso da história da mulher.

Na visão da historiadora (PERROT, 1995, p. 14), as relações de gêneros são o “motor da sociedade”, tudo está envolvido e sofre interferências das construções culturais que recaem sobre cada sexo. A cultura do meio social no qual estamos inseridos, além de produzir, também se encarrega de reproduzir as ideologias de cada época. Dessa forma, a natureza humana resta dividida em dois polos, de um lado a maternidade, o espaço doméstico e a delicadeza, do outro, o trabalho produtivo, a honra, a vida pública, o lazer, consequentemente, a mulher está no primeiro e o homem no segundo.

Enquanto que para o espaço público a mulher jamais havia existido, o homem carrega naturalmente uma identidade que se forma, a partir de sua atuação no mundo do trabalho assalariado e dos negócios. Mesmo desempenhando ofícios como o de artesãs, costureiras, doceiras e até mesmo na agricultura, o trabalho da mulher era confundido com as tarefas domésticas e passava despercebido.

A desigualdade de gênero tornou-se tão frequente na ordem social e familiar, que, costumeiramente, passou a ser aceita, inclusive, por aqueles que eram privados de seus direitos naturais, ninguém os reclamava pelo fato de que nem acreditavam que estavam sendo vítimas de injustiça. As mulheres foram sacrificadas com a violação de inúmeros direitos, devido a preconceito e discriminação de uma parcela de homens, que, embora não representando a maioria, agiam de forma a restringir os direitos da mulher, por acreditarem que não eram capazes de exercê-lo (CONCORCET, 2013).

Historicamente, a mulher foi considerada por muito tempo sinônimo de fragilidade, obediência ao pai e ao marido e com pouca capacidade intelectual para desempenhar atividades que não fossem ligadas ao lar e ainda com algumas restrições. Era o homem quem governava a família e a casa, somente após sua morte é que a mulher recebia autoridade doméstica e patrimonial da família.

A própria Igreja Católica procurava manter viva a restrição da vida da mulher aos espaços privados, reforçando a hierarquia entre gêneros e, para que isso fosse aceito sem contestação, reservava algumas atividades para que a mulher pudesse se dedicar, sem afrontar a moral da família, em atividades de caridade e eventos beneficentes, por exemplo. Essas práticas incentivadas pela Igreja proporcionaram as primeiras formas de atuação social às mulheres das classes altas, permitindo com que elas pudessem ver a realidade, além das paredes do próprio lar (HABNER, 2016).

O casamento foi um dos institutos mais importantes nas conjunturas familiares. Além de representar a manutenção da ordem de uma família, dento dos padrões da época, o matrimônio também se resumia em uma forma de preservar o poder das famílias. No entanto, quando se tratava das classes mais baixas, o casamento também possuía grande importância, mas, nesse caso, para garantir a sobrevivência e uma vida relativamente melhor.

Como se não bastasse estarem destinadas ao casamento e excluídas do convívio público, a mulher permaneceu por muito tempo sem ter acesso à educação2, não sabia ler nem escrever, pois se julgava que a instrução formal era desnecessária para a realização das tarefas domésticas. A educação dada às mulheres - e aqui cabe destacar que eram apenas as mulheres pertencentes a elites - voltava-se para a formação de damas que soubessem se portar perante os eventos sociais e de esposas que honrassem seus maridos.

Inicialmente, foram disponibilizadas à mulher as instruções básicas para a vida doméstica e religiosa, aprendia a ler, a escrever e também recebia algumas noções de matemática para que conseguisse manter o controle familiar dos gastos. A respeito da educação doméstica, Vidal (1996) destaca que o ensino destinado à mulher, nos séculos passados, resumia-se à formação de futura esposa e mãe que zelasse pelos filhos, marido e pelas atividades do lar e, dessa forma, desde pequena, já era instruída a permanecer restrita à vida privada.

Soibet (2004, p. 367) explica que a realidade da mulher popular ora se assemelha, ora se distancia daquela vivenciada pelas mulheres das classes mais altas. Mesmo não sendo socialmente aceito pelos preceitos da época, muitas famílias já eram chefiadas apenas por mulheres, o que ia de encontro aos modelos de família burguesa. A mulher pertencente às classes mais pobres, geralmente sempre trabalharam para sustentar a família, “[...] não eram formalmente casadas, brigavam na rua, pronunciavam palavrões, fugindo, em grande escala, aos estereótipos atribuídos ao sexo frágil”.

A atuação da mulher popular não era vista com bons olhos, a vida pública fazia com que fossem taxadas de vagabundas, pois a rua representava a perda da honestidade feminina. Enquanto a mulher burguesa ia, aos poucos ganhando intimidade nos lugares públicos, porém sempre acompanhada de seu esposo, a mulher mais pobre circulada livremente pelas ruas, contudo, mesmo tendo uma realidade distinta, ela carregava o mesmo sentimento de inferioridade, por mais que o seu trabalho auxiliasse nas despesas, não era reconhecido como tal.

O trabalho feminino foi perduravelmente rejeitado pela sociedade, sob a alegação de que violaria a natureza da mulher e depreciaria sua moral, sua saúde, seu casamento e os atributos de boa mãe e dona de casa exemplar. A idealização da mulher perfeita, segundo o olhar masculino, a consagrava “anjo do lar”, dele não deveria e nem poderia sair, afinal, a mulher apenas se construía enquanto sujeito à sombra da imagem do homem e dele era dependente. Dessa forma, “Reconhecer a mulher como indivíduo autônomo equivaleria a desnaturá-la, a precipitar a ruína da ordem familiar, a gerar confusão entre sexos” (LIPOVETSKY, 2000, p. 210).

Segundo Lipovetsky (2000, p. 221), a pós-modernidade escreveu um novo capítulo na história da mulher, retirando-a do lar e a apresentando ao mundo exterior. A princípio, havia a concepção de que o trabalho era representado pela necessidade de auxiliar no sustento da casa, noção que se difundia, inclusive, na mentalidade feminina. Com a evolução sociocultural, o trabalho passou a simbolizar muito mais que a simples complementação do orçamento familiar e uma prioridade fundamental para afirmar a identidade feminina, “[...] uma exigência individual e identitária, uma condição para se realizar na existência, um meio de auto-afirmação [sic]”.

O trabalho remunerado sempre representou um campo de atuação masculina, já que o dever de sustentar a família era um papel atribuído ao homem, motivo pelo qual o trabalho exercido pela mulher, que em suma fora um trabalho doméstico, era impercebível. Porém, conforme já referimos, isso não significa que as mulheres apenas cumprissem as tarefas do lar, uma vez que aquelas que enfrentavam situação de pobreza precisavam encontrar formas para sua sustentação e de sua família.

O trabalho feminino constitui, ainda na contemporaniedade, um dos dilemas da civilização. Pinsky (2016, p. 503) refere que a ideologia de desvalorização do trabalho da mulher em ocupações públicas brota do senso comum de que uma coisa é ser “trabalhadeira”, visão da mulher desejável em todos os grupos sociais, e outra é ser “trabalhadora”, que é o posto da “dona de casa ideal”.

De acordo com Perrot (2007, p.111), nas sociedades ocidentais, as mulheres camponesas foram as mais silenciadas, estavam submissas a regras das famílias patriarcais e à divisão de papéis e espaços; “para o homem, o trabalho da terra e as transações de mercado. Para a mulher, a casa, a criação de animais, o galinheiro e a horta, cujos produtos ela vendia na feira”. Além de suas tarefas habituais, as camponesas também trabalhavam em épocas de colheita ao lado do homem, cuidavam dos rebanhos de gado e também dos parentes idosos e dos filhos.

Com a industrialização, a questão do trabalho feminino assalariado ganha maior repercursão e, com ela, a preocupação se assenta na conciliação do trabalho com as tarefas do lar, julgadas como de maior importância à mulher. Além do trabalho fabril ser considerado um espaço que atenta contra a integridade feminina, também é marcado pela precariedade e más condições de higiene e segurança, que ocasionaram inúmeros acidentes com máquinas e doenças oriundas de longas jornadas.

Uma prática recorrente na fase de industrialização era o trabalho a domicílio, no qual as mulheres prestavam serviços às indústrias sem sair de casa, como era o caso das costureiras e bordadeiras que recebiam por peça de roupa. Mesmo sendo baixo o valor recebido, era uma função que permitia à mulher conciliar as atividades domésticas, proporcionando algum rendimento (CALIL, 2007).

O trabalho era um infortúnio da pobreza na vida da mulher. Socialmente não era aceito que ela tivesse que exercer tarefas que não fossem as da maternidade e do lar. Com a abertura de escolas regulares para ambos os sexos, era preciso formar professoras para atender às meninas, visto que meninos e meninas estudavam separadamente, até mesmo pelo fato de os conteúdos ministrados serem diferentes.

A legitimidade da atribuição do magistério à mulher, assim como outras profissões que vão surguindo, como a de enfermeiras e cuidadoras, decorre do entendimento de que o destino primordial da mulher é de amor, cuidado e sensibilidade, características próprias dessas funções. Louro (2004, p. 453) destaca que havia uma grande preocupação social em torno do trabalho feminino, eis que, “[...] o trabalho poderia ameaçá-las como mulheres, por isso o trabalho deveria ser exercido de modo a não as afastar da vida familiar, dos deveres domésticos, da alegria da maternidade, da pureza do lar [...]”, logo, mesmo em funções como a do magistério, somente moças solteiras, ou mulheres viúvas poderiam atuar.

O comércio também foi um dos setores que recebeu a contribuição feminina, que, impulsionado pelo aumento da população que chevaga às cidades, fez crescer as atividades de compra e venda de produtos. Pequenos estabelecimentos, como: aramazéns, adegas, quitandas, bares e pensões foram os primeiros negócios liderados por mulheres, sendo que foi no mercado de rua que elas encontraram chances para vender seus produtos e serviços, a fim de custear o sustento próprio (MATOS; BORELI, 2016).

Constatamos que a novidade não fora o trabalho da mulher, a grande novidade fora o trabalho assalariado, pois as atividades domésticas sempre foram classificadas como improdutivas. O desafio que a mulher enfrentaria, ao buscar se colocar profissionalmente na sociedade, era muito maior do que ela própria poderia imaginar. A todo momento precisava provar sua capacidade física, moral e intelecutual para o trabalho, mostrando que a profissão não tiraria sua honestidade, não a desvirtuaria, tampouco a tornaria negligente em suas tarefas de mãe e esposa.

5 ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS COLETADOS: TRAJETÓRIA LABORAL E ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS DAS INTEGRANTES DO CORPUS DA PESQUISA

Com o objetivo de refletir acerca da trajetória das participantes do corpus da pesquisa no mundo do trabalho e seu possível contexto de subordinação, em uma sociedade historicamente patriarcal, as informações coletadas por meio dos questionários e das entrevistas, analisadas, a partir da categoria contexto de subordinação, nos permitiram, através dos relatos e dos dados socioeconômicos, constatar a evolução laboral das participantes.

Dentre as 10 colaboradoras que responderam o questionário, verificamos que todas possuem algum tipo de instrução e que seus níveis são variados. Somente 01 das colaboradoras declarou ter cursado apenas o ensino fundamental até a 5ª série, devido à falta de acesso e distância da escola, quando criança. Quatro participantes possuem formação em curso superior e 01 delas possui especialização já concluída, as demais cursaram o ensino médio completo e não estudaram mais.

Apesar de 50% das participantes apresentarem um bom índice de qualificação para o mercado de trabalho, apenas 03, de um total de 10 colaboradoras, continuam estudando, sendo 01 delas em nível de especialização e outras em cursos técnicos. A colaboradora 04 chamou-nos atenção ao referir que em seu país de origem, o Haiti, é formada em Enfermagem, onde exerceu durante 08 anos a profissão, entretanto, no Brasil, sua formação não é reconhecida, motivo pelo qual está cursando Técnico em Enfermagem, porém, devido às dificuldades financeiras encontradas, depende da concessão de bolsa de estudos para poder dar seguimento aos estudos.

Ao analisarmos a faixa etária aproximada das colaboradoras com menos estudos, é possível notar que a instrução era considerada até tempos atrás como desnecessária. Os pais não faziam questão de que as filhas cursassem uma graduação ou um curso técnico, pois a visão que os orientava refletia o patriarcado, em que principalmente à mulher era dispensável o estudo, mas não as prendas domésticas. A limitação constatada quanto ao nível de instrução de parte das colaboradoras, a princípio, não está vinculada às restrições de gênero, mas sim em virtude de dificuldades econômicas para dar seguimento aos estudos e questões de ordem pessoal, como família e filhos.

Da mesma forma, as participantes foram questionadas acerca da idade em que começaram a trabalhar fora de casa e quais os principais motivos que as impulsionaram a buscar uma atividade remunerada. Percebemos que a maioria das participantes iniciou as atividades laborais ainda muito jovens, entre 14 e 18 anos, sendo que apenas 03 começaram a trabalhar, após os 20 anos. O contexto geral das participantes, além de sinalizar que a vida profissional dessas mulheres foi precoce, também indica que suas ocupações iniciais seguem os mesmos moldes dos primeiros trabalhos que as mulheres desempenhavam nas sociedades mais antigas, que são aqueles ligados ao segmento doméstico.

Além de trabalharem em ofícios como babá e doméstica, como foi referenciado pelas colaboradoras 07 e 05, as participantes desenvolviam atividades de baixa remuneração e preponderantemente informais, que se justificam pela falta de qualificação, experiência profissional e pela necessidade econômica que enfrentavam. As dificuldades financeiras das famílias foi uma das causas mais citadas pelas participantes, as quais buscaram formas de ajudar no pagamento das despesas da casa e aumentar a renda familiar, ainda que fosse por meio de trabalhos de baixa remuneração.

A independência financeira e a motivação pessoal também ganhou destaque nas respostas de 06 das participantes, que referenciaram a obtenção de renda própria como um ideal para a independência feminina, uma forma de “[...] prover meu próprio sustento e não depender de ninguém em busca dos meus sonhos”, como relatou a colaboradora número 6. Ainda que diante de circunstância de poucas oportunidades, as participantes desafiaram-se a construir suas histórias sem a sujeição financeira a pais ou esposos, o que revelava o rompimento dos contextos de subordinação em que estavam inseridas.

Os primeiros trabalhos das participantes da pesquisa, em geral de pouca remuneração e prestígio, também são decorrência da herança patriarcal de nossa sociedade, onde se atribui à mulher as atividades menos valorizadas. Saffioti (2005) e Castells (2000) destacam que o poder do patriarcado e, por consequência, a superioridade do homem, estão contidos na organização social, sendo que o desejo expresso pelas participantes de conquistar independência, através da própria renda, demonstra a insatisfação feminina em permanecer sob a dependência masculina, rompendo com o contexto de subordinação a que estavam sujeitas a seguir.
Quanto à trajetória profissional, algumas das participantes já iniciaram na empresa locus da pesquisa, como é o caso da colaboradora 12, que durante a entrevista relatou que está há 13 anos na empresa, sendo seu primeiro e único emprego. Refere que começou como estagiária e foi crescendo com as oportunidades que recebeu e que possui “[...] uma história, bonita, porque eu vi a empresa crescer”. Assim como esta colaboradora, outras 06 participantes relataram que já trabalham na empresa há mais de 10 anos e apenas 4 delas trabalham por tempo que varia de 01 a 04 anos.

Os cargos ocupados pelas participantes da pesquisa são diversificados, revelando que a atuação feminina se dá em todas as áreas da empresa, sendo registrados, desde cargos de liderança, gerenciamentos até níveis operacionais e auxiliares. Por meio da análise dos cargos, assim como pela visão global que tivemos acerca do locus da pesquisa, foi possível evidenciamos que, além das colaboradoras estarem exercendo funções de maior prestígio, elas também executam atividades que em uma visão patriarcal eram classificadas como masculinas.

O padrão cultural, que Touraine (2006) menciona como responsável por assegurar papéis laborais diversos para homem e mulher, já tem apresentado transformações. Conforme apuramos, as participantes da pesquisa atuam em variados cargos, tanto junto à administração, gerenciamento e direção da empresa, quanto nos setores de produção, onde costumeiramente, tem-se a percepção de que sejam áreas de concentração de mão de obra masculina.

Dentre os elementos retirados das questões que compõem a categoria de análise, notamos que 77% das participantes evoluíram no âmbito profissional, algumas com maior intensidade, outras com menos, mas que em geral deixaram as ocupações iniciais que se vinculavam ao trabalho doméstico ou atividades de menor valor, para conquistarem uma vaga no mercado formal, em campos preponderantemente masculinos, como é o caso da empresa locus da pesquisa. Isso nos possibilita observar que ocorreram mudanças quanto ao papel laboral das colaboradoras, bem como a superação do contexto de subordinação, através do trabalho assalariado e que não esteja vinculado a atividades domésticas.

Além do tempo de empresa, as possibilidades de crescimento profissionais relatadas pelas participantes merecem ser destacadas, pois apontam permanência e ascensão do trabalho feminino. Das 10 participantes que responderam os questionários, 07 mencionaram que já foram promovidas durante o tempo em que estão trabalhando na empresa e, por meio de suas narrativas, examinamos que são conferidas oportunidades para as colaboradoras progredirem profissionalmente, à medida que demonstram interesse e qualificação para assumir novos desafios.

Em um contexto geral, as participantes narraram que tiveram chances de crescimento importantes para sua evolução profissional. Apenas 03 das 13 participantes envolvidas na coleta de dados não receberam promoções, até o momento em que foram questionadas. Por conseguinte, é possível afirmar que esse fato decorre do pouco tempo de trabalho das participantes na empresa, que é menor que 02 anos, com exceção da colaboradora 10, a qual mesmo com mais de 10 anos de empresa ainda não foi promovida, o que também pode se justificar em razão de sua falta de qualificação para ascender a outros cargos, visto que possui apenas o ensino fundamental incompleto, ratificando a relevância da escolarização.

Para a avaliação da média salarial recebida, apenas as participantes do questionário foram convidadas a responder a pergunta 06. Das 10 participantes, 07 declararam receber em média 01 a 02 salários mínimos nacionais, 02 recebem de 02 a 03 salários e apenas 01 recebe 08 salários ou mais. Ainda que grande parte das participantes já estejam há um tempo considerável na empresa, inclusive já foram promovidas, percebemos que a média salarial recebida por 70% das colaboradoras questionadas não é expressiva.

As possíveis explicações estão nos aspectos de qualificação da mão de obra e cargo ocupado. As colaboradoras 07, 02 e 01 são as que possuem a média salarial mais alta, entretanto suas funções são de gerência, controladoria e analista, com tempo de empresa de até 16 anos. Além disso, os níveis salariais mais elevados são das participantes que possuem maior nível de estudo, como graduação e especialização em andamento ou concluída.

Já as colaboradoras que recebem em média 01 a 02 salários mínimos, em geral, possuem ensino fundamental, ensino médio ou curso técnico em andamento e desempenham atividades em cargos menores, com menos responsabilidades. As colaboradoras com os menores salários, em panorama geral, estão junto aos setores de produção da empresa, em atividades em que a repetição de movimentos e a força física preponderam sobre a capacidade intelectual.

A constituição de família decorrente do casamento também é um fator que acaba influenciando as mulheres a abandonarem a busca de qualificação, visto que as prioridades mudam, as despesas aumentam, dificultando a continuidade dos estudos por questões propriamente de renda. No tocante ao estado civil das participantes dos questionários, 7 declararam ser casadas ou estarem vivendo em união estável, 2 solteiras e 1 divorciada.

Esses dados colaboram com a compreensão de que, a partir do momento em que a mulher forma uma família, ela passa, muitas vezes, com o esposo e com os filhos, deixando a qualificação em segundo plano, o que resulta em uma inércia profissional, uma vez que, apesar de estar inserida no mercado, não desenvolve aspectos que possam melhorar sua renda ou prosperar em cargos de maior prestígio. A colaboradora 10 contribuiu, por meio de suas respostas, com a construção desse entendimento, referindo que, quando jovem, estudou até a 5ª série devido à falta de condições, posteriormente quando se casou “eu precisava trabalhar pra sustentar minha filha, não tinha como estudar, e agora já estou velha”.

Os relatos das participantes do corpus da pesquisa deixaram claro que há interferência cultural sobre a formação da identidade profissional das mulheres, construindo uma série de preceitos que precisam ser enfrentados e superados por elas. As desigualdades legitimadas no cotidiano decorrem de padrões sociais que se transformam lentamente, à medida que o público feminino inicia o processo de busca de reconhecimento de suas diferenças e igualdade perante o homem, conquistando direitos, atuação pública e o mercado de trabalho.

6 CONCLUSÃO

A presente pesquisa teve como objetivo analisar a trajetória da mulher no mundo do trabalho e sua condição de inferioridade e subordinação, em uma sociedade historicamente patriarcal, assim como a possível evolução de seu papel laboral na sociedade brasileira atual. Através da categoria contexto de subordinação, refletimos sobre a trajetória profissional das participantes da pesquisa e, por meio de seu histórico, avaliamos a situação de dependência e a evolução de seus papéis laborais.

Constatamos que, de maneira geral, as participantes começaram a trabalhar ainda quando jovens, principalmente por necessidade financeira e busca de independência, exibindo o anseio de se tornarem livres da subordinação masculina. As ocupações iniciais desempenhadas por elas eram de pouca remuneração, tipicamente voltadas ao trabalho doméstico, babá, estagiárias ou cargos de menor prestígio, até mesmo trabalhos informais.

Captamos que a maior parte das colaboradoras, em razão da idade, carregava experiências de famílias influenciadas por concepções mais conservadoras e com condições financeiras limitadas. Diante disso, as colaboradoras começaram trabalhando em atividades naturalizadas como femininas e, posteriormente, evoluíram para melhores cargos e profissões, demonstrando a superação do contexto de subordinação e conquista de autonomia financeira, apesar de ainda possuírem uma remuneração, embora esteja na média do mercado local, poderia ser melhor, caso tivessem um nível maior de instrução, visto que a empresa mostrou possibilitar oportunidades de crescimento.

Diante dessas informações, rememoramos a importância da educação formal na conquista da independência financeira e da superação das condições de subordinação em que a mulher foi colocada pela sociedade patriarcal. Apesar dos avanços, como se pode verificar por meio da análise do histórico das participantes do corpus da pesquisa, algumas mulheres ainda se encontram limitadas pela carência de qualificação profissional, principalmente as com idade mais avançada, que, por serem do tempo em que a escolarização não era considerada importante, ou por motivos propriamente financeiros, não deram prosseguimento aos estudos.

Apuramos também que as participantes ocupam cargos variados, inclusive ofícios socialmente masculinizados, atuando lado a lado com os homens, na área de produção. Apesar disso, mais uma vez, comprovamos que a qualificação obtida, por meio de níveis educacionais mais elevados, é responsável por conferir melhores cargos e condições salariais até mesmo na área da produção, visto que as ocupações que demandam apenas destreza e aptidões físicas são ocupadas por mulheres com menos anos de estudo.

Algumas com mais dificuldades, outras com menos, todas as participantes encontraram meios de se afastar do contexto de dependência e subordinação construído histórica e socialmente. As evidências de evolução profissional, em especial junto à empresa locus da pesquisa, explicitam que são ofertadas chances para que as colaboradoras permaneçam atuando na empresa, crescendo à medida que se encontram preparadas para executar novas funções.

Entretanto, ainda estamos inseridos em uma sociedade de cultura patriarcal e machista que, mesmo aparentemente aceitando que a mulher seja plena detentora de direitos, a exemplo dos homens, ainda reserva várias críticas àquelas que bravamente lutam por reconhecimento social e profissional. Por mais que já tenham ocorrido transformações, para que possamos alcançar mudanças efetivas, precisamos de ações que vão além de uma legislação punitiva às práticas discriminatórias, mas especialmente demanda por práticas educacionais capazes de consolidar o pensamento de igualdade em nível social, transformando os paradigmas ainda existentes.

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1 Por questões éticas, não foram divulgados dados que identifiquem as integrantes do corpus da pesquisa. Ademais, em respeito à solicitação da empresa, não foi divulgada sua Razão Social ou Nome fantasia, motivo pelo qual não abordamos históricos, dados ou informações a respeito da mesma.

2 Quando falamos o termo “educação” ao longo da presente pesquisa, estamos nos referindo à educação em seu sentido formal, que é aquela que acontece nos espaços escolares e de formação profissional (GOHN, 2006).

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