Revista Di@logus - Completa

O IMPACTO DA TEORIA DA RELATIVIDADE NA EPISTEMOLOGIA DE GASTON BACHELARD

THE IMPACT OF THE THEORY OF RELATIVITY IN THE EPISTEMOLOGY OF GASTON BACHELARD

 

Mayara de Andrade TerribileI

Diandra Dal Sent MachadoII

 

I Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil. Mestranda em Educação. E-mail: mayaradandrade@gmail.com

 

II Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil. Doutoranda em Educação, com bolsa CAPES. E-mail: diandra_mac@hotmail.com

 

Processo de avaliação: Double Blind Review

Submetido em: 02.05.2019

Aceito em: 15.05.2019

 

Sumário: 1 Introdução. 2 Concepção de espaço em Isaac Newton e em Immanuel Kant. 3 O conceito de espaço em Albert Einstein. 4 O impacto da teoria da relatividade na concepção epistemológica de Gaston Bachelard. 5 Considerações finais. Referências.

Resumo: Neste trabalho, buscamos fazer algumas considerações acerca do impacto que a transformação na definição do conceito de espaço efetivada por Albert Einstein com sua teoria da relatividade causou na concepção epistemológica do filósofo francês Gaston Bachelard. Para tanto, iniciamos apresentando brevemente a definição de espaço elaborada por Isaac Newton, e destacando que a concepção newtoniana de espaço pode ser encontrada na epistemologia elaborada pelo filósofo alemão Immanuel Kant. Em seguida, apresentamos a transformação do conceito de espaço efetivada por Einstein. Por fim, apresentamos algumas considerações sobre como essa transformação do conceito de espaço impactou a elaboração da epistemologia de Bachelard.

Palavras-chave: Epistemologia. Revoluções científicas. Teoria da relatividade.

Abstract: In this work, we seek to make some considerations about the impact that the transformation in the definition of the concept of space realized by Albert Einstein with theory of the relativity caused in the epistemological conception of the French philosopher Gaston Bachelard. For this, we begin by briefly presenting the definition of space elaborated by Isaac Newton, and emphasizing that the Newtonian conception of space can be found in the epistemology elaborated by the German philosopher Immanuel Kant. Next, we present the transformation of Einstein’s concept of space. Finally, we present some considerations on how this transformation of the concept of space has impacted the elaboration of Bachelard’s epistemology.

Keywords: Epistemology. Scientific revolutions. Theory of relativi.

 

1 INTRODUÇÃO

Muitas foram as revoluções científicas que ocorreram ao longo da história da ciência. Neste trabalho, é de especial importância a revolução que se apresenta dentro do campo científico, e, de modo especial, no campo da Física, efetivada no início do século XX com a elaboração da teoria da Relatividade por Albert Einstein (1879-1955). Por meio dessa teoria, Einstein transformou o conceito de espaço conforme fora definido por Isaac Newton (1643-1727). Essa transformação empreendida por Einstein causou impacto significativo na ciência em sentido amplo. De modo especial, e dentro do que nos interessa nesse trabalho, destacamos que essa transformação do conceito de espaço empreendida por Einstein teve algum impacto sobre a concepção epistemológica do francês Gaston Bachelard (1884-1962).

Bachelard foi filósofo, epistemólogo e historiador das ciências. A partir da Filosofia, da Epistemologia e da História das Ciências, ele constituiu uma proposta epistemológica que faz “[...] uma análise histórica das ciências, de suas revoluções, bem como das démarches do espírito científico” (JAPIASSÚ, 1979, p. 65) e que considera o conhecimento como necessariamente vinculado ao seu tempo (Cf. JAPIASSÚ, 1979, p. 68). Entendendo o conhecimento e a própria ciência como produção humana e localizada no espaço e no tempo, para Bachelard, a epistemologia visa não outra coisa que um processo (Cf. JAPIASSÚ, 1979, p. 73). Todavia, sublinhamos que, em Bachelard, isso não é o mesmo que afirmar “[...] que todo conhecimento seja relativo, mas que a ciência se constrói através da descoberta de ‘verdades’ constantemente retificadas e aproximadas. Resulta, então, que a epistemologia é indissociável da história das ciências [...]” (JAPIASSÚ, 1979, p. 73).

Considerando o cenário apresentado acima, o principal objetivo deste trabalho é fazer algumas considerações acerca do impacto que a transformação na definição do conceito de espaço efetivada por Einstein em sua teoria da relatividade causou na concepção epistemológica de Bachelard. Para tanto, o texto está organizado do seguinte modo: Iniciamos por uma apresentação da definição de espaço elaborada por Newton, destacando que a concepção newtoniana de espaço pode ser encontrada na epistemologia elaborada pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Em seguida, apresentamos a transformação do conceito de espaço efetivada por Einstein. Por fim, apresentamos algumas considerações sobre como essa transformação do conceito de espaço impactou a elaboração da epistemologia de Bachelard.

Antes de mais nada, destacamos que este trabalho se caracteriza como um estudo bibliográfico. Nele, a partir de textos dos autores que citamos até o momento – Newton, Kant, Einstein e Bachelard – e de alguns comentadores, buscamos fazer algumas considerações sobre a questão do impacto causado pelo conceito de espaço einsteiniano sobre a epistemologia de Bachelard.

2 CONCEPÇÃO DE ESPAÇO EM ISAAC NEWTON E EM IMMANUEL KANT

Na obra Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, publicada em 1687, Isaac Newton afirma: “O espaço absoluto, em sua própria natureza, sem relação com qualquer coisa externa, permanece sempre similar e imóvel” (NEWTON, 2016, p. 45). “Todas as coisas são colocadas no tempo de acordo com uma ordem de sucessão; e no espaço, de acordo com uma ordem de situação” (NEWTON, 2016, p. 46-47), afirma Newton na obra mencionada. Em seguida, o autor ainda diz que “[é] de sua essência ou natureza que elas sejam lugares, e é absurdo dizer que os lugares iniciais das coisas sejam móveis. Esses, portanto, são os lugares absolutos [...]”(NEWTON, 2016, p. 47). Newton se compromete com a ideia de um espaço absoluto posto como algo que existe independente da matéria e que é anterior à qualquer que seja a experiência (Cf. PORTO; PORTO, 2008, p. 3); e ainda, por não se relacionar com qualquer coisa que lhe seja exterior, é concebido como imóvel.

De acordo Porto e Porto (2008, p. 2-3), a física newtoniana faz distinção entre tipos de observador. Vejamos:

“[...] se formos capazes de identificar um observador para quem as Leis de Newton constituem uma verdade física, todos aqueles que se movam com velocidade constante em relação a ele também serão inerciais, ao passo que aqueles que se moverem com aceleração […] serão não inerciais. Note-se, porém, que poderíamos inverter a afirmação anterior e legitimamente afirmar que é o primeiro observador que está acelerado em relação a esses últimos. No entanto, segundo a física newtoniana, aparentemente a natureza possui um critério absoluto de distinção entre as duas afirmações, um caráter absoluto da aceleração dos corpos, não em relação uns aos outros, mas com referência a um suposto espaço absoluto”. (Grifo nosso.).

Fazendo distinção entre observadores, é a ideia de espaço absoluto que dá coerência e estrutura à tese da mecânica newtoniana (Cf. PORTO; PORTO, 2008).

De acordo com Silveira (2002, p. 33), “[...] na época de Kant, a Mecânica Newtoniana estava amplamente aceita e era considerada como uma grandiosa realização científica.”. Para Kant, “[...] o verdadeiro método da metafísica harmoniza-se, basicamente, com o que foi introduzido por Newton na física [...]” (CASSIRER, 1992, p. 31). É possível falarmos em uma presença da ideia de espaço absoluto newtoniano na epistemologia de Immanuel Kant.

Segundo Kant, o espaço, assim como o tempo, é uma forma a priori da sensibilidade, ou ainda, uma intuição pura (Cf. KANT, 2010). Mas o que Kant entende por sensibilidade? Em que consiste a intuição? Conforme o filósofo alemão, “[a] capacidade de receber representações (receptividade) graças à maneira como somos afectados pelos objetos, denomina-se sensibilidade.” (KANT, 2010, p. 61). Acerca da intuição, o autor afirma que “[s]ejam quais forem o modo e os meios pelos quais um conhecimento se possa referir a objectos, é pela intuição que se relaciona imediatamente com estes [...]” (KANT, 2010, p. 61). É pela sensibilidade que “[...] são-nos dados objectos e só ela nos fornece intuições [...]” (KANT, 2010, p. 61). De outra parte, os conceitos, afirma Kant, provêm do “[...] entendimento que pensa esses objectos [...]” (KANT, 2010, p. 61). Pensar os objetos, elaborando conceitos, depende necessariamente das formas a priori da sensibilidade, isto é, do tempo, e, dentro do que nos interessa de modo especial neste trabalho, do espaço.

Kant afirma que “[...] a representação de espaço não pode ser extraída pela experiência das relações dos fenómenos externos; pelo contrário, esta experiência externa só é possível, antes de mais, mediante essa representação.” (KANT, 2010, p. 64). Mais que isso, “[o] espaço é uma representação necessária, a priori, que fundamenta todas as intuições externas” (KANT, 2010, p. 64). A intuição do espaço, bem como a do tempo, é lógica e cronologicamente anterior a toda experiência. Intuir o espaço e o tempo é o que torna possível a experiência do sujeito. Dizer que o espaço é uma intuição pura é dizer que ela não pode ser produzida ou modificada pela experiência. Dito de outro modo, em Kant, o espaço é entendido como algo pronto no ser humano. Ele é absoluto na medida em que se dá como acabado, circunscrevendo, a partir desse seu acabamento posto já no ponto de partida, as possibilidades de conhecer do ser humano.

3 O CONCEITO DE ESPAÇO EM ALBERT EINSTEIN

Tempos mais tarde, já no século XX, Albert Einstein imaginou, dando continuidade nos estudos que vinham sendo elaborados por outros pensadores, a possibilidade de não existir, tal como pretendia Isaac Newton, distinção entre observadores. Segundo Newton, existem dois tipos de observadores: os inerciais e os não inerciais; o observador inercial é aquele que se move em velocidade constante em relação ao fenômeno observado e para o qual as leis da mecânica newtoniana são válidas, o observador não inercial é aquele que se move com aceleração não nula em relação ao fenômeno observado e para o qual as leis da mecânica newtoniana não são válidas. As leis sobre o movimento dos corpos, segundo Newton, dependem da velocidade em que eles estão em relação a quem os observa.

A teoria da relatividade foi construída por Einstein para postular que as leis da natureza são as mesmas para todos os observadores e não dependem da velocidade em que eles estão. Por meio da teoria da relatividade, Einstein faz uma revolução na Física ao propor que não há um referencial inercial: “[...] en la descripción física de los processos naturales no hay ningún cuerpo de referencia [...] que se distinga del outro.” (EINSTEIN, 1984, p. 56)1. Se não há um referencial, então as medidas de espaço e de tempo tem caráter relativo.

Diferentemente da concepção de espaço absoluto de Newton, em Einstein (1984, p. 98) o conceito de espaço tem caráter relativo:

“[...] las propriedades geométricas del espacio no son independientes, sino que vienen condicionadas por la materia. Por eso no es posible inferir nada sobre la estrutura geométrica del mundo a menos que la reflexión se funde en el conocimiento del estado de la materia”.2

Conforme Einstein, as propriedades geométricas do espaço são condicionadas pela matéria e, sendo assim, não é possível inferir o espaço que ocupa um objeto sem conhecer o estado de sua matéria. O que fundamenta essa impossibilidade é a tese einsteiniana segundo a qual “[...] todos los cuerpos se deforman elasticamente y cambian de volume al variar la temperatura.” (EINSTEIN, 1984, p. 126)3. O volume, que é a quantidade de espaço ocupado pela matéria, modifica-se na medida em que a matéria varia da temperatura. Logo, para determinar o espaço que ocupa um corpo, é necessário especificar a temperatura em cada ponto do corpo e em cada instante do tempo. O espaço é determinado levando em consideração o instante do tempo, de modo que, “[...] haya que concebir espacio y tempo, objetivamente indisolubles [...]”4 (EINSTEIN, 1984, p. 132) e a inferência sobre as propriedades geométricas do espaço é relativa a um instante do tempo.

O caráter relativo do espaço e do tempo proposto pela teoria da relatividade tem impacto não só na física clássica, mas em todas as áreas do conhecimento que utilizam, de alguma forma, esses conceitos. Entre essas áreas, destacamos a Epistemologia.

Apesar de mudanças importantes no âmbito científico (dentro do que nos interessa aqui: a transformação dos conceitos de espaço e de tempo na Física, e, especialmente, a transformação do conceito de espaço), de acordo com Lecourt (1978), a Filosofia continuou a empregar os conceitos de espaço e de tempo no mesmo sentido em que eram empregados na ciência newtoniana . Para Lecourt (1978), seria um insulto à Filosofia confrontar a sua lista de produções entre 1913 e 1927 com os trabalhos científicos da mesma época, uma vez que naquele período não se encontra produção filosófica que represente ou resolva a mesma questão que as novas teorias físicas buscaram resolver.

A Filosofia, de uma forma geral, não foi mobilizada pelas novidades produzidas na revolução científica do início do século XX e continuou utilizando os conceitos de realidade, de matéria, de espaço e de tempo como utilizara até então (Cf. LECOURT, 1978). “[L]a Philosophie utilise ces concepts comme si la science n’en disait rien, ou comme si ce qu’elle dit ne l’interéssait pas [...]” (LECOURT, 1978, p. 10).5 Todavia, podemos dizer que essa afirmação não se aplica ao caso de Bachelard. Vejamos o motivo disso.

4 O IMPACTO DA TEORIA DA RELATIVIDADE NA CONCEPÇÃO EPISTEMOLÓGICA DE GASTON BACHELARD

Segundo Gaston Bachelard, empiristas e idealistas do século XIX acreditavam ainda “no caráter empiricamente unificado do nosso conhecimento do real” (BACHELARD, [1971] 2006, p.15); acreditavam que o conhecimento do real é produzido empiricamente e reflete a unidade, o caráter absoluto dos objetos reais.

“Para os empiristas, a experiência é uniforme na sua essência porque tudo vem da sensação; para os idealistas, a experiência é uniforme porque é impermeável à razão. Tanto na adopção como na recusa, o ser empírico forma um bloco absoluto. De qualquer maneira, julgando afastar qualquer preocupação filosófica, a ciência do século passado oferecia-se como um conhecimento homogêneo […] organizada por uma razão universal e estável [...]” (BACHELARD, 2006, p.15).

A ciência do século XIX, levando em consideração o modo como o sujeito conhece o real, se propõe a oferecer um conhecimento homogêneo da natureza. A ideia de uma ciência homogênea é justificada, tanto por empiristas quanto por aprioristas, através das teses: (i) de que a natureza apresenta sempre os mesmos padrões, que ela é uniforme e unificada em todas as partes e (ii) de que a razão é estável e universal, ou seja, é a mesma desde sua constituição e a mesma em todos os sujeitos. Os dois polos do conhecimento, a razão e a natureza, possuem, portanto, caráter absoluto. A possibilidade de um conhecimento homogêneo da natureza tem como fundamento as concepções epistemológicas clássicas de razão universal e estável e de natureza unificada. É possível afirmar, então, que no século XIX havia uma adequação entre as concepções epistemológicas clássicas e a ciência. “A ciência e a filosofia falavam a mesma linguagem” (BACHELARD, 2006, p. 15).

A revolução científica do início do século XX, no entanto, desequilibra a relação entre a ciência e a Filosofia. Um dos marcos desse desequilíbrio está no surgimento da teoria da relatividade de Einstein. Seu modo de conceber espaço, tempo e movimento é distinto do modo concebido por Newton, que, como vimos, pode ser encontrado também na proposta epistemológica kantiana, na medida em que entende tempo e espaço como absolutos para o sujeito. Segundo Constança Cesar, “o que a teoria einsteiniana propõe, do ponto de vista filosófico, é uma crítica das noções a priori de espaço e tempo kantianas, as quais, no pensamento de Kant, têm um valor absoluto” (CESAR, 1966, p. 67). Bachelard, tendo como fundamento as reconstruções conceituais empreendidas pela ciência do século XX, produz uma epistemologia que é tanto não-platônica quanto não-kantiana (Cf. JAPIASSÚ, 1979, p. 69).

“O eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações [...]. A representação que pode ser dada antes de qualquer pensamento chama-se intuição. Portanto, todo o diverso da intuição possui uma relação necessária ao eu penso [...]” (KANT, 2010, p. 131). O “eu penso” kantiano é uma unidade, é a condição de possibilidade do diverso da intuição; a intuição, por sua vez, é condição de possibilidade de todos os pensamentos e representações do sujeito. Segundo Bachelard (2006, p. 127), a consciência da

“[...] identidade do espírito no eu penso [...] constitui-se, em si, a garantia de um método permanente, fundamental e definitivo. Perante um tal sucesso, como apontar a necessidade de modificar o espírito e de ir em busca de conhecimentos novos?”

Bachelard critica a tese da identidade do “eu penso” defendida por Kant. O comprometimento com a identidade do “eu penso” reflete a tese kantiana segundo a qual as categorias do entendimento são dadas a priori e que, sendo assim, não podem ser modificadas. No entanto, “a ciência é uma das testemunhas mais irrefutáveis da existência essencialmente progressiva do ser pensante” (BACHELARD, 2006, p. 22). Por esse motivo, “a doutrina tradicional de uma razão absoluta e imutável não passa de uma filosofia [...] ultrapassada” (BACHELARD, 2006, p. 126). Segundo Bachelard (2006), as reconstruções conceituais que ocorreram ao longo da história da ciência são evidência de que as categorias do entendimento do ser pensante (ser que constrói e reconstrói os conceitos) também são reconstruídas. Einstein, quando reconstruiu a ideia de espaço absoluto, por exemplo, reconstruiu também o seu “ser pensante”.

Bachelard foi altamente impactado pela revolução científica do início do século XX, de modo que “[...] critica as filosofias que utilizaram certos conceitos (de realidade, de espaço, de tempo...) como se as ciências nada houvessem dito sobre eles” (JAPIASSÚ, 1979, p. 71). A teoria bachelardiana adota as concepções de realidade, de matéria, de espaço e de tempo nos mesmos termos em que são formuladas pela física teórica que lhe é contemporânea; propondo, assim, uma nova perspectiva epistemológica que caminha lado a lado com as novas teses científicas.

Essa modificação no âmbito da epistemologia a partir dos novos rumos da ciência se justifica pelo entendimento de Bachelard de que a própria ciência e o conhecimento estão em constante movimento. Dentro do pensamento de Bachelard, “é por retificações contínuas, por críticas, por polêmicas, que a Razão descobre e faz a verdade” (JAPIASSÚ, 1979, p. 69); de modo que, “para a ciência, o verdadeiro é o retificado, aquilo que por ela foi feito verdadeiro, aquilo que foi constituído segundo um procedimento de autoconstituíção” (JAPIASSÚ, 1979, p. 69). É por isso que, para Bachelard, “[...] a racionalidade científica só pode ser regional, e é por um lento processo de integração, pontilhado pelas revoluções científicas, que se constitui o império da Razão” (JAPIASSÚ, 1979, p. 69).

A partir da crítica à concepção de razão absoluta e imutável, proposta, por exemplo, por Kant, Bachelard constrói sua tese sobre a evolução do espírito. Sobre isso, em texto que consta na obra organizada por Dominique Lecourt e que congrega parágrafos diversos escritos por Bachelard, este faz a seguinte afirmação:

“Uma tese como a nossa, que considera o conhecimento como uma evolução do espírito, que aceita as variações respeitantes à unidade e à perenidade do eu penso, perturbam necessariamente o filósofo. E, não obstante, é a uma tal conclusão que teremos de chegar se quisermos definir a filosofia do conhecimento científico como uma filosofia aberta, como a consciência de um espírito que se constrói no trabalho sobre o desconhecido [...]” (BACHELARD, 2006, p. 127).

O conhecimento, conforme Bachelard, é uma evolução do espírito; o espírito evolui e, como consequência, se abre a possibilidade para a construção de um novo conhecimento. Contemplando os conhecimentos novos que foram construídos pelos cientistas do início do século XX, Bachelard conclui que o espírito do cientista que compreende o tempo e o espaço como relativo não é o mesmo que os concebe como absolutos. Para Bachelard, “o espírito só pode instruir-se transformando-se” (BACHELARD, 2006, p. 203). A concepção bachelardiana segundo a qual o conhecimento é uma construção progressiva tem como fundamento a ideia de que o espírito do sujeito, por construir conhecimentos novos, não pode ser concebido como uma unidade absoluta e permanente. A pluralidade, a relatividade e a mudança são, portanto, constitutivas do espírito do sujeito, do conhecimento e da ciência.

Para Bachelard, a revolução científica protagonizada pela teoria da relatividade de Einstein evidencia que há uma independência entre o verdadeiro e o real, contradizendo, portanto, a tese empirista segundo a qual o conhecimento é um dado apreendido diretamente da realidade. Dedicaremos os próximos parágrafos a uma breve apresentação da crítica bachelardiana ao empirismo; na sequência, faremos o mesmo acerca da crítica bachelardiana ao idealismo.

Ainda que exista certo pluralismo e divergências acerca de pontos específicos plural, pelo menos uma tese é compartilhada pelos epistemólogos que se denominam empiristas, a saber: o conhecimento verdadeiro é uma cópia do real, é apreendido “[...] diretamente do dado claro, nítido, seguro, constante, sempre ao alcance do espírito totalmente aberto [...]” (BACHELARD, 1996, p. 29). O conhecimento que é construído por Einstein através da teoria da Relatividade, no entanto, não é demonstrado como verdadeiro apelando para a realidade. Sobre a relação entre o conhecimento verdadeiro e a realidade, Bachelard afirma: “o problema da verdade de uma doutrina não deriva do problema de sua realidade, mas que pelo contrário, o juízo de realidade deve-se fazer em função de uma organização de pensamento que já deu provas de seu valor lógico” (BACHELARD, 2006, p. 41).

Segundo Bachelard, a teoria da relatividade é um exemplo de que é possível demonstrar a verdade de uma tese sem apelar à realidade, isso porque “[a] doutrina relativista surge, com toda a evidência, como verdadeira antes de aparecer como real” (BACHELARD, 2006, p. 41). Considerando a posição de Bachelard, a epistemologia empirista não se mostra como adequada para explicar os termos em que se dá a produção de conhecimento, uma vez que “não é [...] a coisa que nos poderá instruir directamente como o proclama a fé empírica” (BACHELARD, 2006, p. 16). A teoria bachelardiana, tendo no seu horizonte as singularidades da demonstração da teoria da relatividade, opõe-se ao empirismo. Segundo Cesar (1996, p. 74),

“o que caracteriza, para Bachelard, a relatividade é a dialetização e a retificação de conceitos [...]. A Relatividade não descreve diretamente a realidade, mas organiza o pensamento de modo a levá-lo a se aproximar do real. Postula uma realidade, considerada não como um dado, mas como retificação de idéias, construção racional. Deste modo, Bachelard toma decisivamente partido contra o empirismo”.

O idealismo, segundo Bachelard, também se mostra como uma concepção epistemológica inadequada para explicar os termos em que se dá a produção de conhecimento pela ciência contemporânea.

“O idealismo imediato, cujo ponto de partida é uma intuição global que oferece ao mesmo tempo o sujeito e o objeto, é duplamente errôneo: falha ao apresentar um sujeito originalmente constituído, ao passo que o espírito é um valor de ordem essencialmente dinâmica [...]. O idealismo imediato também falha no terreno objetivo quando pretende tomar a idéia como um absoluto que se pode destacar pela análise: a ideia é sempre solidária de correlações. [...] De toda maneira, a idéia sempre corresponde a uma modificação espiritual” (BACHELARD, 2008, p. 83).

Ao assumir o sujeito como originalmente constituído, o idealismo se compromete, em última análise, com a ideia de uma “razão substancialista, isto é, que conservasse uma estrutura invariável [...]” (BULCÃO, 1981, p. 25). No entanto, a construção de novas teorias promovidas pela ciência contemporânea – a relatividade de Einstein, por exemplo – é “o testemunho de que o espírito científico está em constante evolução” (BULCÃO, 1981, p. 26). As concepções de espaço e de tempo postuladas na teoria da relatividade não são as mesmas concepções que Einstein possuía antes de construir a teoria da relatividade. Essa mudança de concepção einsteiniana foi possível na medida em que estruturas e princípios cognitivos foram modificados. A produção de novos conhecimentos promovidos pela ciência contemporânea é, pois, uma demonstração de que a razão é mutável (Cf. BULCÃO, 1981).

A crítica de Gaston Bachelard não tem como objetivo apenas por em relevo as inadequações dessas teorias frente a revolução científica do início do século XX. Bachelard, tem como intuito, salientar que

“[...] a polaridade epistemológica [ou empirismo ou apriorismo] “é [...] a prova de que cada uma das [dessas] doutrinas filosóficas [...] é o complemento efetivo da outra. Uma acaba a outra. Pensar cientificamente é colocar-se no campo epistemológico intermediário entre teoria e prática, entre matemática e experiência. Conhecer cientificamente uma lei natural, é conhecê-la simultaneamente como fenômeno e como númeno” (BACHELARD, 1978, p. 4).

Ao tecer uma crítica ao dualismo das epistemologias clássicas, Bachelard evidencia que, tomados isoladamente, nem o empirismo, nem o idealismo dão conta de explicar satisfatoriamente como o sujeito conhece.

“Um empirismo sem leis claras, sem leis coordenadas, sem leis dedutivas não pode ser pensado nem ensinado; um racionalismo [apriorismo] sem provas palpáveis [...] não pode convencer plenamente. O valor de uma lei empírica prova-se fazendo dela a base de um raciocínio. Legitima-se um raciocínio fazendo dele a base de uma experiência. A ciência, soma de provas e experiências, soma de regras e de leis, soma de evidências e de fatos, tem pois necessidade de uma filosofia com dois pólos”. (BACHELARD, 1978, p. 4-5).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ideia de um espaço absoluto, isto é, de um espaço que existe independente da matéria e que é anterior a qualquer que seja a experiência, foi postulada por Isaac Newton. Ao longo deste artigo, buscamos explicitar que é possível falarmos em uma presença da concepção newtoniana de espaço na epistemologia de Immanuel Kant. Isso porque, para Kant, a intuição do espaço é lógica e cronologicamente anterior a toda experiência. Ao conceber o espaço como uma intuição a priori, Kant se posiciona em um dos dois polos da epistemologia clássica, mais especificamente, no âmbito do que se denomina como idealismo.

A teoria da relatividade de Albert Einstein oferece uma nova perspectiva sobre a ideia de espaço, a saber: o espaço não é absoluto, mas relativo. Essa nova perspectiva, antes de ter a sua realidade verificada experimentalmente por meio de um juízo a posteriori, foi demonstrada como logicamente verdadeira por meio de um juízo a priori. A relatividade einsteiniana é, portanto, uma teoria que sintetiza em si dois polos epistemológicos; é um exemplo de pensamento científico do início do século XX que, para ser explicado, necessita que se assuma a alternância do a priori e do a posteriori. Se a teoria da relatividade proposta por Einstein é um exemplo da alternância obrigatória do a priori e do a posteriori, uma epistemologia que tem o objetivo de explicá-la precisa também assumir essa alternância. Como vimos, as epistemologias clássicas não assumem a alternância obrigatória do a priori e do a posteriori.

Por sua vez, Gaston Bachelard, ao mesmo tempo em que aponta para a inadequação de uma epistemologia de dois polos (e, neste sentido, para a inadequação do idealismo kantiano), propõe uma nova epistemologia. Essa epistemologia traduziria em termos filosóficos o duplo movimento do pensamento científico do início do século XX, a saber: a alternância obrigatória do a priori e do a posteriori. É por construir uma teoria epistemológica que reflete a alternância obrigatória do a priori e do a posteriori que é possível afirmar que a obra de Bachelard foi impactada pela teoria da relatividade de Albert Einstein.

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1 “[...] na descrição física dos processos naturais não há nenhum corpo de referência [...] que seja distinto de outro.” (Tradução livre das autoras).

2 “[...] as propriedades geométricas do espaço não são independentes, mas vêm condicionadas pela matéria. Por isso, não é possível inferir nada sobre a estrutura geométrica do mundo a menos que essa reflexão esteja unida ao conhecimento do estado da matéria (Tradução livre das autoras).”

3 “[...] Todos os corpos se deformam elasticamente e mudam de volume ao variar a temperatura” (Tradução livre das autoras).

4 “Daí que tenha que se conceber espaço e tempo, objetivamente como indissolúveis”. (Tradução livre das autoras).

5 “[...] a Filosofia utiliza seus conceitos como se a ciência não tivesse dito nada, ou como se o que ela disse não lhe interessasse [...]” (Tradução livre das autoras.).

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